Escavações na Villa Romana de Santa Catarina de Sítimos testemunham as transformações do mundo rural no vale do Sado, entre o tempo de Augusto e a Antiguidade Tardia

Entre 20 de julho e 21 de agosto de 2026 decorreu a terceira campanha de escavações arqueológicas do projeto SITIMUS – Salvaguarda e Valorização da Villa Romana de Santa Catarina de Sítimos, em Alcácer do Sal. Os trabalhos permitiram avançar no conhecimento deste importante sítio arqueológico do vale do Sado e trouxeram novos dados sobre a sua organização, cronologia e diferentes fases de ocupação.

O projeto é coordenado por Sónia Bombico, investigadora do CIDEHUS da Universidade de Évora, Ana Patrícia Magalhães, investigadora do CECH da Universidade de Coimbra, e Rita Balona, arqueóloga do Município de Alcácer do Sal.

O SITIMUS resulta de uma parceria entre o CIDEHUS – Universidade de Évora e a Câmara Municipal de Alcácer do Sal, contando igualmente com o CECH – Universidade de Coimbra e a ArchaeoSpain como parceiros.

Durante o mês de julho, os trabalhos contaram com a participação de estudantes da Universidade de Évora e voluntários locais. Em agosto decorreu a terceira Escola de Verão em Arqueologia e Museologia, desenvolvida em parceria com a ArchaeoSpain, responsável pelo recrutamento e seleção dos estudantes internacionais. Este ano participaram estudantes de universidades dos Estados Unidos da América, do Canadá e do Reino Unido, entre as quais a University of California, a University of Arizona, a Vancouver Island University, a University of Western Ontario e a University of Oxford.

Os trabalhos arqueológicos incidiram em três áreas distintas do sítio, denominadas Sectores A, B e C.

No Sector A, os trabalhos continuam a procurar compreender a grande piscina e o conjunto de compartimentos que a rodeiam. Esta área, assim denominada em 2024, é dominada pela presença de uma grande natatio (piscina), que poderia integrar as termas da propriedade rural. Conhecem-se, contudo, na Lusitânia outras piscinas de grandes dimensões utilizadas como reservatórios de água ou como elementos de valorização arquitetónica e paisagística das villae, funcionando como espelhos de água.

Na campanha de 2026 foi possível escavar a vala de fundação da piscina, e os resultados apontam para que esta tenha sido construída durante uma fase de monumentalização da propriedade. Procurou-se também conhecer melhor as estruturas relacionadas com a condução e evacuação de águas e aprofundou-se o estudo da área exterior, que seria pavimentada com uma espécie de calçada.

Escavação da vala de fundação da piscina.
Escavação da vala de fundação da piscina (Sector A)

Foi ainda aberta uma nova área a sul, onde a escavação revelou novos muros, demonstrando que o edifício se prolonga nessa direção. Como sublinha Ana Patrícia Magalhães, responsável pelos trabalhos no Sector A, “só a continuação dos trabalhos permitirá delimitar este edifício e determinar inequivocamente a sua função”.

No Sector B, interpretado como a provável área de um lagar, as novas descobertas revelam uma história cada vez mais complexa de utilização, abandono e transformação do espaço. Os trabalhos têm permitido compreender melhor as distintas fases de ocupação desta área produtiva, sendo já possível reconhecer pelo menos dois momentos distintos, eventualmente três.

Para esta leitura contribui a identificação de uma sepultura de incineração, cuja cronologia não deverá ultrapassar os finais do século II ou os inícios do século III d.C. A sepultura será provavelmente posterior à primeira fase de ocupação da área produtiva e poderá estar relacionada com um período em que o espaço já teria perdido as suas funções originais. As cinzas e os vestígios da incineração foram cuidadosamente recolhidos e crivados e serão alvo de uma análise bioarqueológica mais aprofundada pela equipa de Antropologia do projeto.

Escavação da sepultura, sector B.
Escavação da sepultura (Sector B)

Os materiais arqueológicos identificados no Sector B ajudam, por outro lado, a recuar significativamente a cronologia da área produtiva. A presença de cerâmicas finas e de mesa, nomeadamente terra sigillata itálica e cerâmicas de paredes finas, associada à presença significativa de ânforas ovoides lusitanas de produção local do vale do Sado, aponta para a plena laboração do lagar nos primeiros anos do século I d.C., podendo o início da sua atividade remontar ao último quartel do século I a.C., em plena época augustana.

Em termos de infraestruturas, a campanha permitiu colocar a descoberto novos muros e definir pelo menos cinco compartimentos. O alargamento da escavação para norte revelou ainda um novo tanque, que se junta aos quatro identificados nas campanhas anteriores, todos revestidos com argamassa hidráulica (opus signinum).

Escavação do tanque 2 (Sector B)

Foi igualmente colocado a descoberto um canal relacionado com a circulação de água, essencial para a limpeza e higienização dos tanques. Outros vestígios apontam para a existência de um complexo sistema de canais e ligações entre os diferentes tanques, cuja organização e funcionamento constituem agora uma das questões centrais da investigação.

Os trabalhos permitiram também a remoção integral de um dolium que se encontrava in situ, um grande recipiente cerâmico utilizado no armazenamento de produtos alimentares, como vinho, azeite ou cereais. Cada fragmento foi cuidadosamente removido e acondicionado para posterior estudo e tentativa de reconstituição da peça. Apesar da fragmentação, foi possível recuperar um bordo completo, de perfil em “S”, importante para a identificação tipológica do recipiente.

As novas descobertas abrem, assim, novas hipóteses de investigação sobre a organização e o funcionamento da área produtiva da villa, a denominada pars fructuaria. Nas palavras de Sónia Bombico, responsável pelos trabalhos nesta área, “a interpretação das estruturas tem-se revelado especialmente desafiante, porque muitas delas, em particular tanques e canais, foram cortadas, destruídas e aterradas ainda em época romana, no âmbito de intervenções de reorganização e reconstrução do espaço que terão ocorrido algures entre a segunda metade do século II e a primeira metade do século III d.C.”.

A campanha de 2026 trouxe também novas ferramentas para a documentação e interpretação das estruturas arqueológicas. Apesar de não dispensar os métodos tradicionais de registo, incluindo o desenho de campo, o projeto beneficia agora de documentação tridimensional, recorrendo à tecnologia LiDAR de um Apple iPad Pro de 11 polegadas, adquirido com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através do investimento atribuído pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) ao CIDEHUS – Universidade de Évora.

Esta tecnologia permite realizar um registo tridimensional rápido e detalhado das estruturas e contextos em escavação, sendo particularmente útil para documentar e interpretar a complexa sobreposição de estruturas e as diferentes fases de construção.

Em 2026, a equipa abriu uma nova frente de investigação: o Sector C, onde se procura identificar a área residencial da villa. Esta nova área, localizada a sul do Sector A, foi selecionada a partir dos resultados da prospeção geofísica, na expectativa de encontrar vestígios relacionados com a zona residencial da propriedade.

Os resultados da última semana de escavação revelaram-se especialmente promissores. Segundo Rita Balona, responsável pelos trabalhos nesta nova área, foi identificado um muro e recuperado um conjunto numeroso de fragmentos cerâmicos.

A continuação dos trabalhos permitirá perceber a natureza e a extensão das estruturas agora identificadas e determinar se a equipa estará, finalmente, a aproximar-se da área residencial desta grande propriedade rural romana.

Os materiais arqueológicos recuperados nas diferentes áreas intervencionadas mostram que a ocupação da Villa Romana de Santa Catarina de Sítimos se prolongou pelo menos até aos meados do século V d.C., testemunhando uma longa história de ocupação e transformação do sítio.

Paralelamente à investigação arqueológica, o projeto SITIMUS está a desenvolver, em parceria com o Município de Alcácer do Sal, um Plano de Salvaguarda e Valorização da Villa Romana de Santa Catarina de Sítimos. O objetivo é assegurar a preservação das estruturas, preparar progressivamente o sítio para futuras visitas e comunicar os resultados da investigação, aproximando este património da comunidade e dos diferentes públicos.

E que melhor forma de terminar uma campanha arqueológica no vale do Sado? Entre os achados mais singulares encontra-se um fragmento de cerâmica de mesa, proveniente do Norte de África, mais concretamente da atual Tunísia, decorado em relevo com um golfinho – uma imagem com quase dois mil anos que não poderia ser mais familiar na paisagem do Sado.


Comentários

Uma resposta a “Escavações na Villa Romana de Santa Catarina de Sítimos testemunham as transformações do mundo rural no vale do Sado, entre o tempo de Augusto e a Antiguidade Tardia”

  1. Avatar de Christine Fuchs-Khakhar
    Christine Fuchs-Khakhar

    It is exciting to see the progress the SITIMUS project has made in a short time. Especially interesting to see the changes in building constructions, how rooms (compartments) were adapted to different uses, to see the practical functions of constructions (e.g. water trenches), the changing use of space over time (with a burial in the production area?!) and of course finding such beautiful artefacts as the dolium and terra sigillata sherd with dolphin relief.

    This project no doubt benefits from a team led by very knowledgeable experts who enjoy sharing their expertise with students and fostering enthusiasm for the discovery of life, productions, development of a Roman villa in Lusitania.

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